Especialistas em saúde mental falam sobre o Janeiro Branco
De acordo com a Organização Mundial da Saúde – OMS, o Brasil é o país com o maior número de pessoas ansiosas, com 9,3% da população diagnosticada. O número confirma a necessidade de conscientização sobre o cuidado com a saúde mental, objetivo da campanha Janeiro Branco.
Para falar sobre o assunto, a Unimed Costa do Sol convidou dois psicólogos para gravarem o primeiro episódio de 2024 do Unicast. A jornalista Raíla Maciel entrevistou o psicólogo do hospital, Lucas Alves, e a psicóloga da Medicina Preventiva, Heyde Medeiros, que falaram sobre os fatores que podem levar ao sofrimento psíquico, além de incentivarem a autocompaixão através de práticas possíveis para o dia a dia.
Durante o episódio também foi lançado o Programa de Apoio ao Empregado (PAE), benefício que oferece assistência psicológica, social, financeira e jurídica aos colaboradores da Unimed Costa do Sol. A divulgação foi feita pela Analista de Gestão de Pessoas, Monalissa Keller.
Confira a íntegra da entrevista:
Raíla: Para começarmos é importante explicar por que no primeiro mês do ano existe uma campanha para falar sobre saúde mental. Tem relação com as demandas exigentes no período de final de ano, por exemplo?
Lucas: Esse portal de fechamento de ciclo nos convoca a fazer muitas reflexões. Nós percebemos que essas datas de fim de ano disparam alguns gatilhos mentais, são datas que sensibilizam muito, algumas angústias se levantam, traumas vêm à tona. Então, até para nós, profissionais, é difícil tirar o nosso período de recesso, pois a demanda é alta.
Raíla: É importante lembrar que ainda estamos vivendo um período pós-pandêmico. Esse contexto pode nos afetar?
Heyde: Sim, estamos vivendo um período de muito imediatismo. E temos o agravo das tecnologias, das redes sociais que acabam favorecendo esse imediatismo; as pessoas antes não estavam tão habituadas a estar na mídia e agora tem um movimento de maior exposição e nem sempre estamos preparados para isso.
Lucas: Esse movimento midiático precisa ser muito cuidadoso. Estamos vendo o quanto representações de uma vida “perfeita” colocam as pessoas em confronto com elas mesmas. Essa cultura muito positivista tem gerado questões psíquicas muito relevantes.
Raíla: Por isso a campanha do Janeiro Branco nos faz um alerta para esses fatores de adoecimento?
Heyde: Sim, a campanha vem para que a gente possa se dedicar a olhar pra gente. O tema desse ano é “Saúde mental enquanto há tempo: o que fazer agora?”. É sobre o que a gente pode fazer por nós mesmos, pelas nossas relações e pelo nosso bem-estar.
Raíla: Vocês têm percebido uma busca maior por esse cuidado ou ainda há muita resistência?
Heyde: Apesar de ter aumentando o número de buscas, ainda há muita resistência, pois existe todo um estigma por trás. As pessoas que possuem algum transtorno mental são separadas da sociedade ainda hoje, até mesmo dentro do seu próprio lar.
Lucas: Há muita incompreensão, ainda é um tabu falar sobre saúde mental, ainda há resistência. Muitas pessoas resistem em reconhecer que precisam de ajuda e é importante estarmos atentos aos sinais. No nosso contexto de trabalho precisamos exercer a empatia, perceber quando nossos colegas não estão muito bem e nos colocarmos à disposição para escutar, para acolher. E assim vamos aos poucos, no trabalho de formiguinha, desmontando esse preconceito, essa concepção errônea de que saúde mental é frescura.
Raíla: Todas as pessoas passam por situações de tristeza, como lutos, e momentos de ansiedade na vida. Quando isso se torna uma doença?
Heyde: Percebemos um agravo quando a pessoa começa a ter prejuízos na vida dela, deixa de ir para o trabalho, de fazer suas atividades diárias. Isso já mostra que não é só uma tristeza, podemos pensar numa depressão ou em outras condições que levaram a isso.
Lucas: Quando começa a impactar na vida da pessoa, nas relações, na produtividade. Quando há muita desmotivação, a pessoa vai perdendo a conexão com os objetos de prazer, algo que ela gostava muito de fazer e vai deixando de lado. À medida que isso vai comprometendo a sua existência, precisamos então colocar um farol nisso e recorrer à psicoterapia, por vezes, também o recurso da medicação, quando necessário.
Raíla: E quanto aos fatores que levam ao sofrimento, eles podem ir além do indivíduo?
Heyde: Sim. A questões relacionadas ao trabalho, econômicas, de moradia, relacionamentos… tudo isso vai favorecer para que a pessoa tenha ou não uma boa saúde mental. São fatores importantes, pois não podemos olhar o sujeito por si só. Tem a cultura, o ambiente em que essas pessoas vivem, tudo isso pode ajudar a desencadear um problema de saúde mental.
Raíla: Para lidar melhor com todos esses aspectos, um recurso que traz muitos benefícios é a psicoterapia?
Lucas: É muito pertinente falarmos sobre limites. Nós vemos hoje uma exaustão muito grande, as pessoas estão muito sobrecarregadas, ultrapassando os limites delas e quando deixam para fazer algo já é um pouco tarde. Por isso a campanha vem trazendo esse impacto, que é cuidar da saúde mental enquanto há tempo. Precisamos reconhecer os nossos limites, precisamos exercer a autocompaixão, o autoconhecimento.
Raíla: Como lidar com essa exaustão?
Lucas: Precisamos encontrar brechas na rotina para fazer alguma coisa por nós mesmos. Isso é necessário. Sabemos que no contexto hospitalar temos uma rotina muito puxada, mas chegamos num momento em que as pausas são cruciais.
Deixe um comentário