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“Oficina Comidinhas” é aliada contra seletividade alimentar

Incentivar a introdução de novos alimentos na rotina de crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista (TEA). Esse é o objetivo principal da “Oficina Comidinhas”, uma das atividades coletivas oferecidas no Viver Bem Infantil de Macaé.

Com o acompanhamento profissional especializado, os pacientes trabalham aspectos como a seletividade alimentar, relacionada à inflexibilidade neurológica e às dificuldades sensoriais, características do autismo, de acordo com a nutricionista Sara Santos Pessanha Barcelos, responsável pelo atendimento na unidade.

“A seletividade alimentar é caracterizada por recusa alimentar, pouco apetite e desinteresse pelo alimento, não tem nada a ver com frescura ou birra. Na verdade, ela é uma dificuldade que a criança tem para introduzir novos alimentos em sua dieta”, explica Sara.

O paladar restrito é bastante comum em pacientes com TEA, por isso, o simples fato de apresentar uma fruta diferente pode ser desafiador para as famílias. Mirian, mãe de Rebeca, de 11 anos, relata que a filha passou anos querendo comer apenas batata frita. Para ela foi um período de angústias e preocupações.

“Antes de participar da oficina, a Rebeca só comia banana e, no máximo, maçã. Teve um dia que ela saiu daqui com várias frutas no espetinho e já comeu a uva, coisa que ela não comia. Aos poucos o paladar vai deixando de ser tão seletivo. Ela já comia brócolis, agora está comendo mais, assim como couve-flor e salada”, comemora a mãe.

Para transpor essa barreira, a profissional utiliza estratégias que deixam mais leve o contato com novos alimentos. Brincando, os pacientes são estimulados a experimentar. O incentivo dos colegas também ajuda, além de favorecer a socialização.

Para Valquíria, mãe de Guilherme, de três anos, o maior obstáculo era a textura dos alimentos. “Guilherme procura pelo alimento seco. Antes ele só queria seco e amarelo, era muito difícil para ir ao mercado, por exemplo. Isso é muito preocupante para a mãe. Ele tem dificuldade de aceitar o feijão misturado com o arroz, tem que ser tudo separado. Mas estou tendo resultados. Estou fazendo trabalhos com ele em casa, ele adora, pois tudo o que gente envolve a criança, ela prova”, relata.

A nutricionista explica que a interface com os pais é muito importante para que a terapia alimentar tenha êxito. Toda semana, após a oficina, ela dá um feedback para dizer o que funcionou e também para ouvir os pais. Há também uma devolutiva mensal e mais completa.

Como forma de incluir a família no processo, são encaminhadas receitas fáceis e saudáveis que podem ser feitas com as crianças e os adolescentes em casa. “Eu disse que a gente precisava de algo acessível, pois a gente não tem tempo, a nossa rotina é muito cheia. Mas todas as receitas que ela passou são simples e sem mistério. Sendo fácil, se torna possível dar continuidade”, pontuou Mirian.

O sucesso dos casos depende muito do comprometimento dos responsáveis, por isso os planos precisam sempre estar alinhados à realidade de cada família. “É importante tratar da família e não tratar só a criança. Para os pais entenderem a importância da reeducação alimentar, pois assim fica mais fácil inserir alimentos saudáveis no dia a dia da família”, acrescenta Sara.

Os pacientes são encaminhados para o acompanhamento nutricional no VBI pelo médico. Alguns chegam com obesidade, outros com taxas baixas e falta de nutrientes. Para cada um é traçado um plano alimentar personalizado e que busca atender a necessidade diagnosticada.

No atendimento individual, a nutricionista verifica quais são os alimentos que o paciente tolera, para iniciar a introdução de novidades, de acordo com grupos de alimentos.

“Sempre falo para as mães que a gente não pode desistir, pois se naquele momento a criança não aceita, depois ela pode aceitar. Mas a gente precisa continuar estimulando”, reforça a profissional.

Essa estimulação acontece em etapas e é necessário utilizar técnicas para que ela seja efetiva. O ápice do processo é o provar, mas antes disso o paciente precisa tolerar, tocar e cheirar para, finalmente, levar a comida até a boca.

“É preciso ter técnica para trabalhar a seletividade. Quando a criança é estimulada da maneira correta, não tem como não melhorar”, afirma a nutricionista.

“Quando a criança é estimulada da maneira correta a chance de obter resultados positivos é muito maior”, afirma a nutricionista.

LEGENDA: As estratégias utilizadas pela nutricionista trazem leveza e diversão para o momento de contato com alimentos diferentes.

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